sábado, 23 de outubro de 2010

LÁ NA INFÂNCIA

Minha mãe casou-se na década de 70 e minha irmã nasceu três anos depois. Já eu, nasci um ano de dez meses após, quando minha irmã estava se equilibrando para andar. Como minha mãe tinha que me carregar para resolver seus assuntos lá na cidade, minha irmã tinha que ir andando mesmo. Não tinha bebê conforto, minha mãe ainda não dirigia e tinha que se equilibrar para dar conta. Mas lá em casa sempre tinha o dinheiro do taxi para todas as emergências, porque não existia celular e meu pai trabalhava em serviço externo. Não adiantava deixar recado na empresa que trabalhava. Quando ele chegava em casa, estava tudo resolvido. Todos os dias tinham muito assunto e novidades na hora do jantar.
Eu era um bebê bonzinho. Não chorava. Aliás, só chorava quando estava com fome. Meu cabelinho ficava todo embolado no berço e para minha mãe saber se eu estava acordada, tinha que ir até o quarto para verificar. Ela morria de dó de me deixar lá brincando sozinha, mas como minha irmã chorava o tempo todo, era a solução. Eu e meu mundinho. Qualquer coisa me divertia e distraia. Acho que é por isso que tenho na parte de trás do meu cabelo uma mecha de cabelo que só fica embolada. Haja escova e chapinha.
Na nossa infância, minha irmã tinha que me incluir nas brincadeiras com suas amigas. Como era mais velha, tinha que cuidar de mim. Brincávamos na rua ou íamos para a vizinhança e como nunca cumpríamos o horário da volta pra casa, minha mãe era obrigada a chamar pelo nosso nome. Nosso nada, ela só chamava o nome da minha irmã, mas estava subentendido que eu também estava incluída. Até que um dia minha irmã se rebelou e disse que tinha que chamar meu nome também. Minha mãe até tentou, mas a sonoridade não combinava. O nome da minha irmã é composto e o meu não. Já bastava isso.
Crescemos juntas e minha mãe insistiu que eu e minha irmã deveríamos dormir em um quarto só. Por isso nosso quarto era muito grande. Mas na adolescência eu queria fazer uma parede no meio para dividir. Ficava imaginando uma parede invisível e afirmava categoricamente que aquela parede existia. Só na minha cabeça.
Aqui na Casinha o quarto é grande, enorme! Mas nem penso em dividir nem em meus sonhos e nem em minha imaginação. E está do jeitinho que eu quero. Só falta a tal bèrgere que ainda habita os meus sonhos. Acho que o gostoso é justamente isso: esperar ansiosamente, curtir a falta que faz e compor tudo aos pouquinhos. Assim, sempre tem novidade!

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