domingo, 24 de outubro de 2010

QUASE TUDO DEPOIS

Como somos apenas duas, meu pai apresentava-nos como a “mais velha e a caçula”, e não existia nenhuma no meio entre nós. Eu, a caçula. Morria de vergonha de apresentações, queria ser invisível nessa hora. Aliás, invisível sempre que encontrava gente que não conhecia.
 Depois de quase dois anos após a minha irmã, eu nasci. Era um verdadeiro anjinho de candura. Só naquela época de bebê. É claro que minha irmã aprendeu a andar, falar e eu só depois. E foi na primeira escola, o Castelinho Vermelho, que eu sonhava em estudar. Um mundo mágico, lúdico, em que minha irmã foi estudar primeiro e eu depois. Mas não durou muito tempo não, saí desse castelo encantado quando minha irmã foi para a primeira série em outro colégio e eu entendi que deveria sair também e fui completar o pré primário no Pinóquio. E tinha que começar tudo de novo: novas apresentações para novos coleguinhas. Tarefa difícil pra mim. Só fui mudar de escola depois, e novamente esse temor pelo inesperado. Tinha medo de me perder naquele colégio enorme que tinha no pátio duas árvores enormes que faziam muita sombra, e novamente novos coleguinhas e no primeiro dia de aula, a tal das apresentações. Falar o que de mim?
Minha irmã começou a namorar ainda adolescente e eu bem depois. Meu pai era ciumento. Quase infartou quando viu o primeiro beijo da minha irmã. Era um sacrifício para ele. Ela casou-se com esse único namorado e eu ainda não. Não oficialmente, casei-me com o compromisso do amor e da felicidade, meu altar é o meu coração. A burocracia vou deixar para depois. Ela tem duas filhas e uma delas já adolescente. A outra pré adolescente. Os meus, ainda estou deixando pra depois. E já está virando muito depois. Se o tempo deixar, serão “os meus” e se não, “o meu” já está bom. Serei boa mãe, mas tenho certeza que o Danilo será um pai maravilhoso, assim como o meu. Tive e tenho sorte. Obrigada meu Deus!
Minha irmã conseguiu a habilitação para dirigir primeiro e eu depois. Para mim, na prova oral, bastou apenas uma pergunta: “você está preparada?" E eu entendi " o que é uma parada?" Como respondi prontamente, a ansiedade me ajudou. Já no exame de rua só passei depois do terceiro, nesse caso a ansiedade só atrapalhou.
Minha irmã formou sua família, seu lar, mudou-se e mora hoje em Salvador. Pra mim, só aconteceu depois, bem depois. Ela também entendeu bem antes a transformação que isso faz em nossas vidas. Eu só consegui entender quinze anos depois. Cada uma no seu tempo.


2 comentários:

Zi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

A minita de terceira! te amo!