segunda-feira, 30 de agosto de 2010

ATUAIS JEITOS DE MORAR

A grande tendência dos dias atuais estão nos novos jeitos de morar. Perguntamos sempre para nossos clientes: o que é morar bem? E a cada dia nos surpreendemos que os valores que cada um associa à casa, e que, na maioria das vezes, relacionam-se com o conforto e sensação de bem estar. Para uns, materializar o conceito de morar bem está nos movimentos culturais, nas referências regionais, no fascínio por misturar. Objetos trazidos de viagens, presentes personalizados, referências comportamentais, moda e atitude, são linguagem que traduzem essa mistura irreverente e que com boa dose de bom senso e muito humor traduzem em um ambiente gostoso de ficar, compartilhar e enriquecer sempre. É quase que como uma obra inacabada e que sempre há espaço garantido para mais um mimo. Enquanto para outros, o conceito é mais contemporâneo, o “Simples Chique”, livre de excessos, mas sem conotação nenhuma para o minimalismo, (que cá entre nós, já era e que bom que esse movimento já passou!) reina absoluto e o ambiente reflete sempre a serenidade, as peças bem posicionadas, num arranjo equilibrado e proporcional.
O que essa duas propostas tem em comum? Tem a inspiração como tendência e busca imprimir a personalidade do morador em cada espaço.
A casa hoje é o local onde tudo acontece: é onde convivemos com a família na mesa de refeições, de onde a cada gole de café falamos dos acontecimentos do dia e projeções e sonhos futuros. É desse cheiro, dessas sensações que a linguagem de cada um se desperta. É também “nesse lugar que tudo acontece” que os amigos chegam e reparando nos detalhes exaltam a vontade de ter uma casa assim desse jeitinho, igualzinha. É através dessas expressões que despertam as surpresas e nos causam tanta emoção.
Hoje em dia, refletindo um pouco na questão de reaproveitamento, sustentabilidade e dosando com a criatividade, conseguimos resultados significativos e primorosos aproveitando, recliclando peças que aparentemente, não tem valor. Vale por exemplo, uma cadeira antiga da casa da vovó que pintando com tons quentes ( é o grande Hit da década!) transforma em uma peça curinga, inusitada e cheia de valor emocional. Essa peça, misturada com outras mais contemporêneas vira a “vedete” da sala de jantar. Um luxo!
Portanto, nem sempre percebemos, mas as mudanças nos jeitos de morar são intuitivas, inspiradoras e concluimos que o melhor laboratório de pesquisa é realmente visitar a casa das pessoas, conversar, contar casos, reviver e resgatar heranças familiares, perceber como as pessoas interagem com o mundo e como a curiosidade e o bom humor refletem a vanguarda do atual conceito de morar bem.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

MALA DE PANDORA





Outro dia, fui até a casa de minha mãe buscar mais coisas minhas deixadas por lá. Vasculhando e limpando, revivi momentos deliciosos da minha vida de estudante, vendo aqueles desenhos lindos, bem esboçados e cheios de sonhos. Entre risos e lágrimas, consegui desapegar de alguns projetos e decidi que pra minha felicidade atual, deveria permanecer ainda com alguns. Hoje, nesse mundo tão tecnológico, os atuais colegas de profissão já não sabem mais o que é a régua “T”, normógrafo, esfuminho, caneta Pentel, dentre tantos outros itens essenciais para o desenho de arquitetura. E olha que nem sou tão contemporânea assim viu? A cada geração, muda-se muito a tecnologia e os avanços pra fazer o projeto com mais velocidade, ganha a cada dia maiores proporções. Confesso que tenho saudades de fazer uma bela perspectiva com toda técnica aprendida e guiada por uma sensibilidade da maneira de desenhar de cada um. E confesso também que o Autocad ajuda muito!
Ainda nessse mesmo dia, na casa de minha mãe, encontrei uma mala bem antiga que guardava também muitas coisas. Dentro dela tinha trabalhinhos da pré escola, fotos, muitas fotos, um ferro antigo e muitas lembranças. Tive que me conter pra não deixar nada pra trás, por não tenho espaço físico para tantas coisas sentimentais. Mas eu queria a mala! Carrregada de boas recordações, essas mala representa mais que isso: ela trouxe do interior os sonhos de meu pai, que aos 19 anos veio para Belo Horizonte em busca de trabalho, família, felicidades e muita esperança. Eu, como sonhadora assumida, quis logo ter esse objeto bem perto de mim. Coloquei ali dentro minhas bonecas antigas, algumas fotos, o tal ferro, minha agenda de 15 anos! Que delícia! Já na minha casinha, ela ocupa um espaço especial na decoração e está no centro da minha sala de estar. Fechada, com tudo isso dentro. Coisas especiais guardadas que de vez em quando abro e leio um pedacinho do diário de uma adolescente. Em cima dela, revistas e livros com projetos atuais publicados que eu denomino de “Pilha da Fama”! (Tenho certeza que um dia a pilha vai crescer!)Não é por acaso.

PARA DEIXAR A CASA MAIS BONITA: CAFÉ

Lembro bem de quando éramos ainda meninas, eu e minha única irmã, a nossa brincadeira predileta era montar “casinha”, assim como toda menina. Associavam-se à nós mais duas primas e dividíamos em duas duplas pra montar esse território restrito que valia tudo: objetos de decoração, colcha inacabada de crochê da minha vó, tecidos de costura da mamãe, calculadoras, arquivos e pastas de meu pai. Como em uma competição, as juradas, mamãe e minha vó Vivina, analisavam e votavam no melhor ambiente. Quase sempre eu e minha dupla perdíamos e morria de inveja da “casinha” de minha irmã. Eu, muito esperta, prestava bastante atenção na composição que minha irmã fazia e depois no dia seguinte, montava a “casinha” tal qual a do dia anterior.... e novamente ela surpreendia e fazia outra melhor ainda! Fui aprendendo alguns truques com ela e, minha mãe sempre que saía para comprar um adorno novo pra casa, levávamos junto e a responsabilidade de decorar nossa casa, ficava a cargo de mim e de minha irmã. Anos mais tarde, eu e minha irmã nos encontramos no pré vestibular e no impasse e imaturidade de escolher uma profissão por uma vida inteira, ela escolheu o curso de Arquitetura e eu também! Hoje, sou arquiteta, e minha irmã, mãe.
Dessas lembranças, recordo-me também da minha vó materna, a Vivina, e ela me ensinou alguns truques de decoração pra casa. Em um de seus ensinamentos tive a aula de como deixar a casa mais bonita: café! Não por acaso, esse era o produto de ofício de meu amado e querido pai. Por uma vida inteira, esse grão, o sonhado “Ouro Verde”, representa o cheiro de minha infância, e nessa profusão de sensações, guardo com carinho em minhas memórias a fascinação desse cheiro em minhas narinas e muito mais ainda, em meu coração.
Voltando às minhas aulas “ do lar”. Morei a vida inteira em uma única casa, que meu pai construiu. Não só construiu, como também foi o autor do projeto. Aliás, retifico quando disse lá em cima: “imaturidade em escolher a profissão”,nunca, jamais, estava no sangue! Herança genética de família. Nessa casa que morei por 35 anos, minha mãe colecionava plantas: samambaias, samambaias, ( muitas samambaias!), comigo -ninguém -pode, antúrio, árvore da felicidade e chefleras, dentre outras. As tais chefleras cresciam absurdamente se havia solo e muitas mudas foram plantadas em vasos, esses, que minha mãe usava como item de decoração dentro de casa. Por ser uma espécie que precisa de pouca luz, ficava perfeito na entrada da sala de TV lá de casa. Minha vó, muito sabida, ensinou pra mamãe que pra deixar a cheflera com folhas mais brilhantes, deveria passar café ( tal qual o que bebemos, sem açúcar) em cada folha da planta. E advinha quem foi a responsável por passar esse segredinho caseiro folhinha por folhinha? Não satisfeita, e muito perfeccionista, minha mãe deixou bem claro que antes de passar o café, tinha que limpar uma a uma com um pano úmido. Castigo de infância.
Hoje moro em outra casa e com outra pessoa que escolhi pra minha vida inteira. Na verdade, é um outro conceito de casa, um Loft. Melhor que imaginava em meus sonhos de “morar” de arquiteta e muito despojado,autêntico. Perfeito pra nós! E tenho a felicidade de ter um quintalzinho. Nesse espaço, tenho uma sombra gostosa de um pé de ora-pró-nobis, e que nela, dependuro minhas orquídeas, brincos de princesa e dinheiro em penca. Na divisa com meu vizinho, o Tatá, estou começando a fazer uma cerca viva ( e que agora não me recordo o nome da trepadeira, mas vou investigar) e nesses dias de inverno, as folhas estão empoeiradas. Outro dia, sentada na cadeirinha escolar que comprei na Rua Itapecirica e pintei de amarelo (minha cor predileta!) junto à mesa antiga de jacarandá da minha cozinha e contemplando minhas plantinhas, lembrei do truque de minha avó. Depois do meu último gole de café, não resisti e fui até minha trepadeira e pensei em voz alta: será que tá na hora de aplicar o golpe do café folhinha por folhinha? Melhor não... será???! Acho que vou deixar pra próxima geração!Herança de família.