sábado, 17 de dezembro de 2011

OUTROS TEMPEROS

E finalmente cheguei à cozinha. Lugar preferido da minha casa. É daqui, debruçada sobre uma mesa de madeira antiga, cor de jacarandá, com marcas do tempo, que permito contar certos velhos costumes. Permito dizer que o tempo faz bem, que a saudade faz-me recordar memórias e lembranças lindas, guardadas com preciosidade em meu coração. A cozinha distribui os aromas, permite a acolhida, o papo gostoso e o desabafo em conversas sem hora para acabar. É quase sempre ao redor de uma mesa que o verdadeiro encontro acontece. Vale contar sobre o dia a dia, essa rotina necessária, falar sobre nossos amores, essas paixões cotidianas e os recalques do coração. Vale espremer a alma e deixar cair uma lágrima ou mergulhar nos pensamentos, nas falas bem colocadas e deixar extravasar  um sorriso largo. Entre amigos, pessoas queridas, é assim. A intimidade revela-se em um presente embrulhado com fitas largas e coloridas.

Olho para a  "vendinha", um armário sem portas na cozinha e vejo meus ingredientes,  temperos essenciais para o almoço do fim de semana. Guardados ali, tenho alguns com data vencida. A salsa desidratada, acumulou um cheiro que já não mais aromatizava o preparo dos alimentos. Prefiro um salsa bem hidratada e foi isso que fiz: plantei ervas que gostaram da chuva mansa e floreceram, distribuindo aromas e sensações frescas em meu jardim. O dia hoje tá cinza lá fora, aqui dentro, vejo uma vendinha colorida, no melhor estilo color block da moda!

Lá em casa, também era assim: a hora do almoço aos domingos, uma festa. Aprendi a cozinhar ainda menina, na categoria ajudante de cozinha, lavando e auxiliando e logo eu e minha irmã assumimos o cardápio dominical. Costume gostoso de seguir. Hoje posso encostar a mesa de jacarandá no canto e permitir nesse espaço de meros nove metros quadrados, um lounge, onde posso dançar, sorrir e me divertir. Dança comigo?

Sinto saudade de momentos não vividos. Parece um futuro roubado. Fantasio o que poderia ser bom, o que poderia ter mudado meu destino. Procuro situações onde a minha família completa, inteira, reunida em uma mesa grande desfrutando de momentos inesquecíveis. A saudade hoje acordou com cheiro de macarronada com batatas, com cheiro de um frango bem assado e molho de tomates frescos. Fechei meus olhos e logo fui servida com um café passado na hora. Cheiro de infância, cheiro da lida do dia a dia. O mês de dezembro é assim, uma reticência entre o que está terminando e o novo começo. Precisamos dessa pausa, esperando a interrogação do próximo ano que virá. Novas surpresas e novos desafios. Novos momentos para depois, virarem lembranças.

O Natal é no domingo. E nesse Natal, mais uma vez, terá um assento vazio. Vou retirar essa saudade, só por um momento, e permitir bons momentos com o que chegaram, com os que vieram para ficar e preencher um pouco desse vazio. E serei feliz sim, só que de outra maneira.

domingo, 11 de dezembro de 2011

DE OUTRAS ROUPAS

Tirei do cabide roupas que há muito tempo não usava. Dependuradas, algumas novas e outras já desgastadas com o tempo, pediram para vestir outras pessoas. Tirei algumas ainda com etiqueta, que nunca foram ao menos experimentadas e já estavam em desuso. Não que eu seja consumista, nunca fui. A verdade é que a maioria de nós, usa apenas vinte por cento do armário. Sempre variações com as mesmas roupas. E sempre afirmamos que não temos nada para vestir! O universo ( e o closet !) feminino é assim.

Entendi através dos versos do Filtro Solar que a moda são como os amigos: sempre vem e vão, mas nunca, jamais, devemos abrir mão dos poucos e bons. Guardei por pelo menos uns dez anos uma saia longa, que não queria abrir mão e olha só que bom: hoje dita um dos looks favoritos da moda. O melhor de tudo é que ela abotoa na minha cintura! Manter a medida da cintura por dez anos, não tem preço!

Organizo o armário seguindo uma sequência de cores que vai dos brancos, passando pelos bejes, amarelos ( claro!), laranjas, vermelhos, beringelas, azuis, verdes, cinzas e pretos.  Fica mais fácil para identificar tudo o que tenho. Vi em um programa de tv e funcionou para mim.
Tá lá dependurado, ao meio da minha sequência de cores, um cinza esverdeado esquisito que insiste em fazer mal para o meu coração. É um cheiro de mofo de uma conversa que já deveria ter acontecido, um sentimento de mágoa que insite em ficar e que eu não quero. O meu coração está aberto esperando por um sim! Espero que a naftalina ajude a reparar tanto tempo perdido.
Peguei um espanador e retirei também a tristeza, a inveja, a desilusão e o rancor e dependurei em cabides novos e perfumados, o perdão, o amor e a esperança. Perfeito.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

PRECISO DE OUTROS SAPATOS

Comecei com a faxina. E comecei pelas prateleiras onde ficam meus sapatos. Retirei de lá vários tipos e modelos, alguns de pouco uso, ainda bem novinhos e outros que no final das contas, ou das compras, pareceram mais comigo. As rasteirinhas que permitiam pés firmes e apoiados no chão, pediram outros solos; os de salto anabela revestidos em fibra, sentiram que é hora de reciclar; um par de tênis, que esforça em manter o ritmo da academia, pediu uma atleta de verdade e os de salto bem alto, esses pediram novos pés que realmente os adorassem. Não, não são para mim. Não sou estilo chique, sou despretenciosa e quase sempre faço opção pelo conforto. Em dias de festas, conto os minutos para a hora de distribuir os chinelinhos e nos dias que quero estar bem bonita, esforco-me nas alturas. Tarefa árdua, mas que no final, compensa.

O fato é que tristemente tive que dar adeus à minha sapatilha confortável, de cor forte que adoro, o amarelo, que me levou a vários lugares. Já era hora. Essa me acompanhou em trechos da minha caminhada, passou por caminhos tortos, linhas retas, topos de morros e declives acentuados. O cetim que a cobria, perdeu o brilho, o amarelo já virou aquele amarelinho -cor - de - quarto - de - bebê e o solado já estava com data vencida. Nem o sapateiro poderia fazer milagre. Preciso de outros sapatos. É hora de outos novos  para me levarem aonde eu for e seguir novamente nessa trilha, onde os caminhos podem estar cobertos com flores perfumadas, outras vezes parecendo um queijo suísso de tanta cratera, e por muitas vezes, confesso que quase sempre, torço para estar caminhando nas nuvens.

Prefiro estar sempre nos momentos desafiadores, com os dois pés firmes no chão e permitir essas extravagâncias de pular com um pé só só nos momentos de pura distração.