sábado, 22 de setembro de 2012

FRAGMENTOS 4

PRIORIDADES



Tenha tempo para cuidar do seu jardim, mesmo que seja um jardim sem flores. Tenha tempo para cuidar do jardim da sua vida, da sua casa e de seus amores.

Tenha tempo para ir ao super mercado à pé e voltar com as compras na sacola reciclável que ganhou da sua loja favorita. E aproveite para trazer flores nos braços.

Tenha tempo para conversar com seu vizinho, falar do tempo, do cachorro e dos filhos. Conversa sem pretensão alguma, mas com proximidades de gentilezas com a vizinhança.

Tenha tempo para ir ao cinema e assistir ao filme O Palhaço. E se emocionar. Ou se não puder, assista mais uma vez ao filme Simplesmente Complicado que com certeza estará passando na rede Telecine. Encante-se mais uma vez com o cenário e sonhe com a casa da protagonista. Deseje a cozinha da Jane, personagem da Meryl Streep. Sonhe com o balanço que debruça em um jardim simplesmente encantador. Cuidados: os sonhos costumam se realizar!

Tenha tempo para sua casa. Olhe com delicadeza e agradecimento para todos os seus móveis. Coloque na sua decoração, objetos que fazem parte da sua história. Distribua por toda a sua casa, suas memórias, heranças de família. A casa é sua! Faça da sua casa um lar e não uma loja onde todas as coisas estão nos seus devidos lugares, matematicamente calculadas. Troque as almofadas de lugar, redistribua os móveis, deixe a energia circular. Peça para seu filho fazer um desenho e o emoldure, colocando em um lugar que jamais imaginaria que ficaria tão bom! Receba com carinho as flores que acabou de comprar e perfume seu lar.

Tenha tempo para telefonar e ficar horas e horas falado só de bobagens com a amiga de infância. Tenho tempo de dar boas gargalhadas nessa ligação e relembrando momentos inesquecíveis. Fique menos tempo no Facebook adicionando pessoas que não tem nada a ver. Não conseguimos ouvir e sentir risadas através do computador. Tenha tempo de encontrar essa amiga no cinema, no café ou no bar e continuar essa conversa que não tem hora para acabar. Tenha tempo para dar um abraço de verdade nessa pessoa que só deseja o seu bem.

Tenha tempo para sua vaidade. Corte o cabelo, pinte as unhas com o esmalte da moda. Leia as revistas de fofoca no salão e atualize-se com os assuntos de Diva com o cabeleireiro. Eles gostam disso. Compre um vestido novo.Vai fazer bem. Sonhe em usá-lo em breve e vá para a festa "se achando demais"! Capriche no salto e seja mulherzinha de verdade.

Tenha tempo para a pessoa amada. Crie uma história de amor, faça suas vontades, vista-se bem para sua chegada e capriche no jantar, na conversa; diga o quanto ela é importante para você e faça da sua vida um conto de novelas, de cinema ou o que for. Desenhe sua história a dois com sabedoria e amor.

Tenha tempo para fazer tudo isso e muito mais, enquanto quer, enquanto deseja, enquanto tem tempo. Aproveite cada minutinho da sua vida, não se compare com o outro. Viva o seu momento, o seu cotidiano e a sua rotina. Tenha tempo para fazer da sua vida uma grande festa!

domingo, 16 de setembro de 2012

O ARROZ DE PALMA

O que eu ando lendo:



 "Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema, principalmente no Natal e no Ano Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência.”

O livro tem humor e ensinamentos ditados em sentenças que dão um sabor a mais à história do arroz, acompanhado de humor inteligente. A história é sobre uma família portuguesa que migrou para o Brasil. Os 100 anos de lembranças são contados através da voz de Antônio, o primogênito de quatro irmãos, filhos de José Custódio e Maria Romana. Tudo que é narrado no livro vem das reminiscências de Antônio – cozinheiro de profissão – sempre recheadas de afeto. Ao comemorar seus 88 anos, ele prepara um almoço de família e reune todos: mulher, filhos, netos irmãos e seus descendentes de idade e também comemora os 100 anos de casamento de seus pais já falecidos.

"Velho é criança de fôlego diferente. Já não lhe interessam as correrias nos jardins, o sobe e desce das gangorras, vaivém dos balanços. É tudo muito pouco. O que ele quer agora é desembestar no céu, soltar os bichos que colecionou a vida inteira. Os bichos todos – domésticos, selvagens, úteis e nocivos. Os pesados répteis que ainda guarda no coração e as borboletas, peixes e passarinhos, tudo solto lá em cima!”

A história toda gira em torno de um arroz. No dia do casamento de seus pais, uma chuva torrencial de arroz cai em cima deles, e Tia Palma, irmã de Custódio, possuidora de uma alma mágica, recolhe do chão todo o arroz e dá de presente aos recém-casados: 12 quilos.

Este arroz – plantado na terra, caído do céu como o maná do deserto e colhido da pedra -                                                                                                               é símbolo de fertilidade e eterno amor. Esta é a minha bênção”.


O irmão vê nessa extravagância algo de muito louco, algo totalmente sem nexo, enquanto a cunhada se encanta profundamente com o presente. Esse é começo da história. O arroz, místico e sagrado, não estraga. Esse arroz mágico, ao ser ingerido, provoca felicidade e fertilidade. Esse arroz vai acompanhando as gerações e resiste a uma migração e vai sucedendo a várias gerações. As narrativas são todas elas em primeira pessoa, mas como primeira pessoa múltipla, pois cada personagem tem suas falas próprias, em episódios individuais.

O narrador, curiosamente, descreve episódios que não viu, como por exemplo, lembrar os momentos de seu nascimento e de sua morte, como páginas de um diário, ou, se quisermos, um álbum de retratos de gerações que acompanham as mudanças do mundo. O protagonista é um homem do seu tempo apesar de sua idade avançada. Comunica-se com o seu neto pelo MSN, com webcam, usando a linguagem de internet. O capítulo ‘ Kd vc? ‘É o reflexo dessa contemporaneidade.

Mas o livro não é um diário ou álbum de retratos de uma família perfeita. Ao contrário, muita coisa acontece: casamentos, brigas, separações, intrigas, comemorações, nascimentos, diferentes opções sexuais, desentendimentos e mortes. Tudo que uma família tem direito, temperado com carinho pelo autor, que sabe dosar as palavras com uma poesia deliciosa.

“Família é afinidade, é a Moda da Casa. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito”.


Por isso diz o narrador fala “família não se copia se inventa”. E aos poucos vamos aprendendo, improvisando e transmitindo aquilo que aprendemos ao longo dos diversos “dia a dia” que temos e tivemos em nossas vidas. As lembranças vão prosseguindo ao longo do livro. Memórias familiares que gravitam em torno do arroz e também em torno das dificuldades em se largar uma terra amada por um futuro duvidoso. Seus pais e tia Palma migram para o Brasil, capital federal e depois para o interior do Estado. O patriarca vai trabalhar numa fazenda de café do Sr Avelino e Dona Maria Celeste e a amizade entre os casais é muito forte. Tão forte que o primogênito Antônio casa-se com Isabel, filha do patrão sob as bênçãos das duas famílias.

Alguns trechos saborosos que retirei da narrativa dão o exato sabor dessa jóia:

"…. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza. ….Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de engolir. …por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie."

“Arroz de Palma” de Francisco Azevedo não é um livro de receitas para se conviver em família. Família boa é a “Moda da Casa”. O molho mais apetitoso dentro de uma família é o amor bem temperado pois quando ele se acaba, nunca mais se repete. Um livro que certamente deve ocupar um lugar bem gostoso em sua estante. Um livro para pegar com respeito, ler com alma e guardar com carinho.


Texto extraído do blog  Bons livros para ler de Luiz Guilherme de Beaurepaire.




domingo, 9 de setembro de 2012

viZInhança

Os paulistas invadiram nossa praia e no meio do mar de montanhas, abriram a casa e nos receberam de braços abertos. Essa calorosa acolhida permitiu um olhar investigativo para o simples. A simplicidade de sentar ao redor de uma boa mesa mineira, grande, com cheiro de madeira e permitir risadas, conversas e nada de silêncio. As confissões, os segredos foram revelados aos poucos, enquanto as bolinhas do espumante faziam cócegas no nosso nariz. Brindando esse encontro, essa mesmas bolinhas permitiram empurrar a mesa e dançar enquanto o sol, despedia-se no horizonte. É casa de verdade! Podemos dançar! Foi necessário usar óculos de sol, mas o que é uma praia sem esse fabuloso acessório?

E sem ver o tempo passar, a música tocada no violão, como em nos rituais de antiga moda de viola, deixou aflorar as emoções com a melodia que verdadeiramente toca em nossa vida. Quase que como uma capela, estava afinada com a memória afetiva. A cantiga cedeu espaço para o choro de uma lágrima só. 
Só entre amigos que esses mistérios são revelados. Somente entre amigos que permitimos esvaziar nossos copos e enchê-los novamente com o que efetivamente interessa. Enchemos de descobertas, sonhos, magias e encantamento por estarmos ali, despidos de vaidades e cheios que vontades para que dias como esses demorem para passar. A felicidade também mora nesses detalhes e vem embrulhada em uma caixa bonita e lindamente enfeitada com laços e fitas de cetim. Pode ser vermelha, azul ou amarela. Pode ser da maneira e da cor que preferir.

Lá nessa casa, com jeito de casa, vi um lar. Lar de verdade. Vi que esses paulistas estão aprendendo o minerês e que a palavra arreda, já faz parte do vocabulário. Vi queijo de minas, polenta e claro, não poderia faltar o legítimo pão de queijo. Cada um com sua contribuição.Vi o fogão à lenha posicionado no centro da cozinha, vi a mesa grande que também acolhe e conforta e vi também um piano e uma bateria ocupando o centro da sala. Música para os olhos, música para a alma. Tocada por essas sutilezas, vi dentre tantas outras coisas, da janela do quarto,o amanhecer por trás das montanhas, agora sem óculos de sol e sim com a visão do coração de quem estava feliz por viver tanta coisa boa!

À todos vocês, amigos queridos, o meu muito obrigada!