segunda-feira, 28 de julho de 2014

Saudades do meu pai






E a saudade cedeu espaço para as doces lembranças. Essas se vestiram daquela pontinha de sol que mesmo escondida atrás das nuvens desse dia cinza, brilhou meio tímida no meu jardim.

Vejo essa mala, posicionada no centro da minha sala de estar. Aqui, no meu lar. Carrregada de boas recordações, essas mala representa mais que isso: ela trouxe do interior os sonhos de meu pai, que aos 19 anos veio para Belo Horizonte em busca de trabalho, família, felicidades e principalmente, muita esperança. Eu, como sonhadora assumida sou, trouxe esse mundo para bem perto de mim. Homem simples, de gestos imensamente simples. Gosto muito disso. Herança para a vida toda.

As lembranças permitiram um sorriso de menina enlaçadas nos momentos vividos. Lembrei da banheira que ele comprou, daquelas bem velhinhas, estilo vintage dos dias atuais, que servia de piscina nos dias quentes. E nos dias frios também! Para a meninada, não existia tempo ruim e para mim, era uma piscinão! Revezava o espaço com minha irmã naqueles meros 80cm x 120 cm não dava para as duas nadarem ao mesmo tempo. Posicionada para a fachada oeste da casa, no meio do quintal, o sol era garantido a tarde toda, até ele se pôr atrás de um morro logo à frente. A única sombra era do pé de limão, pode ser limão capeta, não sei mais, mas tinha uma fruta ali sim. Tinha também morangos nos dias de inverno, tomates cereja, pés de alface, couve, mexerica. Tinha mais verde nessa horta que os aqui descritos. Ah, tinha também uma roseira colorindo esse quintal.

Divertido era sua chegada do trabalho. Tinha bala, chicletes, pirulito para mim, minha irmã e mais ou menos outras vinte crianças que já sabiam dessa rotina. Tinha guloseima para todo mundo. E não era brinde, nem prêmio por bom comportamento, nem nada. Era porque gostava. Ele divertia que nem criança. Aos domingos antes do Fantástico, ria do Didi Mocó que nem criança, nessas horas, também era um de nós.

E nesse dia de domingo, a saudade com gosto feliz, queria almoçar macarronada e após a  soneca, ir ao cinema e depois comer pizza no Pizzaiolo. Voltar para a casa com sono e com a certeza que o próximo fim de semana não seria diferente.

A saudade de gosto infeliz me lembrou que a mesa de almoço aos domingos teria uma cadeira vazia, não mais iríamos juntos para o Rio de Janeiro e nem ia ter mais carona para a aula. E também não ia ouvir mais uma vez antes da prova de história seu relato que aprendeu sobre o Descobrimento do Brasil. E tive que começar a prestar atenção na garota do tempo do telejornal, porque o meu "garoto do tempo", não mais estaria ali observando o clima e ditando as previsões do dia seguinte. Não ia mais sentir o calor, o amor, o carinho. Não tinha mais abraço nem beijo.

Sempre achei seu sorriso tímido. Eu, ao contrário, tenho o riso solto, tão solto que quando assusto, virou uma gargalhada. Mas hoje eu pego emprestado aquele seu meio sorriso que também era triste. Triste como o dia de hoje, vinte anos depois.

Desculpe Pai, pelo choro. Não queria te incomodar, mas estava guardado. Porque hoje eu sou toda saudade. Saudade até do que não vivi.


Texto adaptado e publicado inicialmente em agosto /2012 no blog Casa da Zi

7 comentários:

Maria Célia disse...

Oi Zizi
Palavras bonitas, uma bela homenagem ao seu pai que está na Glória de Deus.
Um beijo e fique bem.

Anônimo disse...

Ai, Zi, acho tão engraçado como sua vida se mistura com a minha.
Acho que é a nossa mineirice , lendo vc me lembrei do meu pai...os doces ao chegar do trabalho , pelo simples fato de sentir feliz ao ver meus olhos brilharem e sorriso no rosto.E como era filha única, a casa vivia com minhas amigas (digo, que amigas até hoje) esperando também os bombons do fim de tarde. São doces lembranças e aprendizados que vão nos acompanhar para sempre; com certeza por toda a eternidade , até a nossa próxima existência. Beijos, e se quiser matar saudade dos quintais verdes, com rosa e banheira.... vem me visitar na Querência, por aqui ainda guardo ao vivo e a cores essas lembrança de vida.
Remall

Zi Faleiro disse...

Obrigada Maria Célia, pelo carinho na mensagem! Beijos!

Zi Faleiro disse...

Ei Márcia! Que delícia ler suas palavras! As histórias das pessoas que são regadas no amor, realmente são parecidas. Quem sabe um dia eu apareço em Querência numa grata visita? Adoraria! Obrigada pelo convite! Beijo grande!

Zuleide Felisberto disse...

Pai , ma~e sempre mexem com agente, e sempre fica a impressão que fizemos pouco. Lindo texto!
Saudades de vc por aqui no blog!!
bj

Zi Faleiro disse...

Ei Zuleide! Seja bem-vinda novamente! Beijos!

Angela Bergamaschi disse...

Saudades de meu véinho ...da minha infancia cheia de arterices , de brincar na chuva...ah saudades !!!